Meia-noite, ossos e músculos cansados, Diogo corria pela rua com os restos da chinela já comida pelo uso e pelo asfalto. Se digo músculos, digo apenas por modo de dizer, pois com dificuldade se via algo além de pele e ossos por baixo dos trapos que vestia. Perguntava-se se encontraria algo de útil esta noite, se valeria a pena todo o esforço de sentir suas entranhas arderem, seus ossos fraquejarem, suas pálpebras pesarem.
Anderson e Pitoco deviam ter encontrado algo, e ele só corria pela avenida vazia, nada a encontrar.
Ao longe, avistou uma pequena lanchonete aberta, pessoas ainda procuravam o que comer àquela hora da noite, como ele, porém eles tinham dinheiro, tinham tudo. Resolveu ir pedir dinheiro, apesar de saber como seria recebido pelos donos da lanchonete. Assim, saiu de lá com um sanduíche e um suco na mão, que mesmo não sendo dinheiro, já valiam para pôr algo no estômago vazio.
Voltou a rua para sentar-se, quando percebeu os dois amigos vindo em sua direção. Pensou logo em correr, pois sempre acabava por perder o que ganhava para os amigos, e dos três ele era o menor. Mas os dois garotos eram rápidos e o alcançaram.
- Esse Diogo é um sortudo, conseguiu o que comer ao menos.
- Ô cara, me dá um pedaço, tô morrendo de fome.
- Eu também tô, divide a sorte com a gente Diogo.
Sabia que era assim, só que a divisão nunca era justa, ele ficava com o resto que os dois deixavam. Mas hoje não, hoje era a sua vez, a sua hora, nem que fosse assim tão insignificante: aquele sanduíche era dele, aquele suco era dele. Sentiu toda a sensação prazerosa da posse, um egoísmo gostoso, não seriam aqueles dois moleques que tirariam esse pequeno momento dele. Soltou o lanche no meio-fio e jogou-se pra cima de Anderson, todo pernadas e socos. Pitoco logo o puxou, jogou-o ao chão.
Diogo caiu em si: não tinha chance. Levantou-se de uma vez, agarrou o pacote com a comida e meteu-se a correr. Os garotos nem tiveram tempo de persegui-lo, pois, logo nos primeiros passos, Diogo tropeçou.
Caiu no chão, queda feia. Pitoco aproximando-se dele, viu o sangue na testa.
- Diogo! Diogo!
Ainda tonto e extasiado de dor, levantou-se, mas Anderson ainda com raiva meteu-lhe um chute nas costas, pegou o pacote e saiu com Pitoco a correr.
- Diogo! Diogo!
A mãe gritava para o corpo estendido na rua, mas ele já não podia responder.
