Começou quando mentiu a primeira vez. Não a primeira, mas a verdadeira, a mentira em que se negou, em que atuou (e que péssimo ator!)
Foi assim, uma mentira inocente, uma tentativa infantil de parecer melhor. Quando parou, olhou e já não se reconhecia. Era todo outra pessoa. Sabia que era o mesmo, mas só para si. Mesmo os mais próximos, os mais íntimos, aqueles que conheciam de cor os poros do seu corpo ainda não chegavam nem perto da barreira que ele tinha construído a seu redor.
Muro forte, tijolos, cimento e tinta. Firme, e o mais impressionante: mal se percebia que estava lá, incólume às marés e aos ventos. Na verdade, aí é que residia sua força, só ele percebia o muro cinza e vermelho; e muitas vezes, esquecia-se dele, achava que era livre, para só então deparar-se com sua testa ardendo do impacto, cambaleava e se perdia, esperneava, batia os punhos cerrados contra as paredes, em vão.
Ele mesmo o construíra, mas já não era capaz de derrubá-lo. O Muro havia se tornado ele.
Hoje, só há o Muro.
