sábado, 23 de agosto de 2008

Uma compositora

Na casa do lado mora um moço. Um músico, jovem ainda. Ele é compositor. Outro dia, uma cantora famosa passou por aqui, veio visitá-lo. Pedir uma canções, acho eu. Minha irmã contou-me que a viu entrar, bela como na televisão.

Que coisa ingrata, não é?
Ele então escreve algo, entrega-lhe uma bela música. Ela, em frente à uma enorme platéia usa das palavras dele para encantar o público, mas a voz dela rouba o espetáculo, e ele se se orgulha, faz isso sozinho, num quase egoísmo, mas de aparência altruísta. É como se ele escrevesse um livro para ela publicar como dela, assim como um escritor sem nome que doa suas palavras ao primeiro sujeito que encontra.

Se música eu fosse, comporia só para eu mesma cantar, com poucas exceções. Esperto são aqueles que lançam suas canções eles mesmos. Mas ainda assim eu me sentiria usurpada ao ouvir ou ver alguém cantando a minha música, fazendo sucesso com as minhas palavras, apesar daquela alegria e orgulho anônimo de saber que a música é minha. Falando assim, parece até que sou das mais egoístas, mas não é verdade. O compositor que é acaba passando por uma espécie de desapego, ficando à sombra da música, sem nunca dar a sua verdadeira interpretação. Os cantores, assim como os atores, mentem o que interpretam, roubam, usando de palavras alheias, o gozo do público para si. Não que não haja mérito nisso, mas eu prefiro fazer gozar por minhas próprias palavras.

Acho que os compositores deviam reunir-se secretamente, e já que tem esse gosto todo pelo anônimato, pelas sombras da fama, embaralhar todas as suas composições. Assim um que havia composto três músicas belas trocaria estas com outro que escrevera outras três do agrado daquele. Nas tardes solitárias de domingo, sorririam com o canto da boca ao lembrar daquela música que compôs, que estaria fazendo tanto sucesso na voz de alguém e com o nome de outro. Poderia haver prazer mais secreto?
Este, até eu gostaria de sentir, mas o orgulho me prende. Limito-me a escrever este pequeno texto e jogá-lo no anonimato dando a alguém para, com seu nome, publicar.