Tenho pés americanos, maias, astecas, incas: ágeis
Minhas pernas são de certo norueguesas, bárbaras, indelicadas
Braços africanos, corajosos, místicos
Mãos hesitantes, trêmulas, mas lusitanas e desbravadoras.
Da França vêm os ombros, líricos, lúdicos, revolucionários
Quanto ao peito alemão, sóbrio, ébrio, lógico
Porém incrustado nele, um coração incerto, contraditório
Talvez brasileiro.
Árabe é meu rosto, ríspido, seco, rígido
Em contraste com a Áustria do pescoço, nobre e amigável
Sob os Alpes repousados na nuca fria, gélida,
Sobre as costas asiáticas, largas e distantes.
Meu corpo rende-se ao mundo que o cerca,
E assim vou, habitando, em partes, todas as nações.
No entanto, permanecem os olhos apátridas
Estes passeiam e viajam por toda a Terra
Dissimulam nacionalidades
São ciganos, inquietos, sem se fixar sobre qualquer parte
Fazem somente breves paradas
Quando a ti avistam.
