Sento em frente ao computador e decido ter uma idéia:
Teclado martela, meu amigo dorme ao lado e seus roncos ressonam como máquinas e me vejo numa linha de montagem, esteira rápida, passam-me palavras incompletas, eu adiciono uma ou duas letras, puxo um sufixo de uma caixa próxima e encaixo, mas sempre me parece que encaixei errado. A caixa dos prefixos está longe e, se corro a buscá-la, três ou mais palavras atravessam a esteira e são rejeitadas no controle de qualidade. O controle não funciona bem, mas evita alguns absurdos. O problema é que as palavras chegam ao fim com algo ainda faltando e simplesmente são amontoadas, umas sobre as outras, outras em frente a algumas outras. Começo a ver as frases se formarem, umas bem pomposas, modelos pré-fabricados, tijolo sobre cimento, lindas de se ver. Outras, mais cheias de significado e solidez, logo ao se formar, desmancham no ar. Disso tudo se constrói um texto, e eu o leio, do começo ao fim, e não percebo idéia alguma. Estrutura firme, grandes colunas, arquitetura simples, vigas e muito concreto. Falta algum acabamento, aqui e acolá, mas após reler o edifício pela quarta vez, enxergo a idéia contida nele. Não está exposta em lugar algum, mas diluída na massa do cimento: em algumas colunas pode se ver de relance algum fragmento daquilo que guia a estrutura e mantém tudo de pé.
"Não é o prédio que tá caindo".
