Hoje me peguei pensando
(E me orgulho, ainda consigo pensar, apesar de tudo!)
Sobre as coisas que consegui escrever com lápis, caneta ou teclado.
Mas e quantas só ficaram impressas na memória ou no quadro negro efêmero da mente?
Palavras, como essas, que não passaram de impulsos elétricos
Que não deviam surgir no fundo branco de um monitor ou de um papel velho qualquer
E que me fizeram feliz pelo breve instante em que passaram por mim
Ou que me fizeram triste, mas feliz mesmo assim
Aí está minha grande obra:
Essa que nem chegou a existir, assim, estática
Passou por mim, como passam a todo instante as luzes
Os amores e os neutrinos, aos milhões
Sorte, pensei,
Que não escrevi nada disso
E que sorte mesmo!,
Que escrever acaba sendo matar as palavras e as idéias
E tentar mostrar para outros a beleza que seria aquilo ali tudo muito vivo
Como se um gato, morto, tivesse ao menos um ínfimo brilho do que fora, quando vivo
Minhas palavras, as escritas,
Essas sim, me entristecem
Me parecem animais empalhados expostos na vitrine
E que vergonha, eu aqui empalhando tudo de novo
