sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Chove (1 de setembro, 2007)

Sinto-me novo.

As gotas que caem carregam com elas todas as impurezas que me restam. O suor se confunde com as lágrimas e a chuva, tudo se mistura e segue escorrendo pelos poros, pelas palavras. O sangue derramado não forma mais poças, agora se espalha e, daqui a alguns segundos, não poderá ser notado. As manchas no corpo, os pés sujos de lama, as mãos queimadas: de repente, todas as marcas se esvaem, e, aos poucos, tudo começa a parecer como um sonho ruim, e eu me sinto num leve despertar. Apesar da espera, do sofrimento, da dor, nada foi em vão.

Com a chuva, se vão também os sonhos moribundos, a esperança cambaleante e tudo o mais que me restava de humano e que, muitas vezes, fazia sentir-me desumano. Não lamento, sinto que é melhor que caiam todos estes edifícios condenados, precisarei reconstruí-los, com toda a paciência que me for dada.

O solo, antes um lamaçal espesso, impregnado de raízes velhas e doentes, já não é o mesmo: posso sentir a firmeza das rochas profundas e da areia fina que me toca os pés. As sementes, por tempos escondidas por baixo da terra, dormentes, mas ansiosas por germinar, começam a se manifestar. As flores começam a brotar, o dia raia e os pingos da chuva continuam a cair, levando todo o passado embora. Os galhos, as folhas secas e as cinzas, tudo é arrastado com a fúria das águas, deixando o solo livre para a nova vida. Servirão de adubo em outras terras, talvez. Esta precisa recomeçar do zero. Sem ajuda, sem se apoiar em velhas bases, sem reaproveitar resquícios do dia de ontem, para que surjam sem influências, sem vícios. É a única opção.

E eu, defectivo, chovo.

Revisão