"Cara, um amigo meu tá noivo! E agora?"
Mal o deixei atender ao telefone, interrompi-o mesmo antes de falar, e falei isso, pareci até desesperado.
Era um exagero, claro, mas a notícia que Leandro estava noivo realmente me abalou. Ainda sou jovem, há pouco tempo que comecei a trabalhar, diria até que minha vida adulta ainda nem principiou, sou uma larva em casulo, esperando a hora ideal de me libertar. Considerava que Leandro, amigo tão próximo e de mesma idade que eu, estivesse num estágio semelhante, como uma ostra quase congelada, anestesiada. Descobrir que ele estava noivo e que casaria-se em menos de dois meses realmente teve um certo efeito nas minhas convicções. Se ele realmente estava criando raízes, se fixando em torno de certos alicerces, como fico eu que estou à deriva a tanto tempo e sem previsões nenhumas de arraigar-me a algo? Ele que, tão parecido comigo, com convicções semelhantes, de um instante para outro, sem ao menos me avisar que planejava algo tão radical, resolvera se casar. Nós que sempre fomos tão presos a nossa liberdade, ao menos à idéia que fazemos dela, deveríamos seguir nossos princípios, e não trairmo-nos uns aos outros e a si mesmos.
Foi uma infelicidade de momento, mas numa vontade súbita, liguei pro Rodrigo, amigo não tão próximo, com quem nem me identifico tanto, e joguei-lhe aquelas palavras, antes mesmo que ele pudesse dizer "Alô?":
"Cara, um amigo meu tá noivo! E agora?"
Não que nossa conversa tenha tido algo de realmente notável ou que ele tenha me digo algo que tenha me apaziguado, não. Não é isso que estou tentando narrar. Tento mesmo é descrever este meu impulso súbito de ligar pra alguém que não estivesse a par do que estava se passando. Logo depois, achei engraçada a situação toda. Conversei boas horas com o noivo, senti a liberdade fluindo nas palavras dele, me senti equivocado. Ainda mais, não sou tão inerte assim, analisando bem, já estou próximo de terminar a graduação, tenho um trabalho decente, principalmente considerando que é um estágio e bem no começo. Estou longe dos confortos e comodismos que podem ser morar com os pais após os vinte anos. Muitas vezes sinto-me independente, dono de minhas vontades e desejos e com o poder de torná-los realidade. Talvez o que me falte mesmo é experiência, quisera chegar na idade da razão.
- Cara, um amigo meu tá noivo! E agora?
- Que foi, Samuel? Diabo é isso, tu me ligou às dez horas da noite só pra dizer isso? Hahaha. Cara, relaxa, uma conhecida minha tá casada, desde os dezoito. É a vida, uns se lascam mais cedo.
- Sim, também conheço gente que tá casada já, desde cedo, não é a mesma coisa. De qualquer jeito, foda, né não?
- Sei lá, não vejo nada demais, só que eu não quero isso pra mim, pelo menos agora, não no meu atual estado de espírito.
- Pois é, eu também tô de boa. Pois ei, vou desligar aqui, amanhã tenho que acordar cedo pra trabalhar, falou!
- Falou.
