Ricardo,
Preciso da tua ajuda.
Decidi jogar fora todos os lápis e canetas de minha casa. Os papéis, doei, mandei reciclar. O próximo passo é guardar o computador com o qual estou te escrevendo agora. Parece-me a única opção razoável e sensata, das que me restam.
Te explico: nestes últimos dias, não consigo parar de escrever. E o pior, tudo remete à ela.
Segui todos os teus conselhos. Parei de frequentar os lugares que sempre íamos juntos. Cortei relações com amigos comuns, aqueles menos próximos, que nos viam como casal inseparável. Joguei fora tudo que me lembrava ela, até minha camisa favorita, que ela tinha consertado com costura. Mas de nada adiantou.
Se tenho um papel a mão, começo a rabiscar, as palavras fluem pelos meus dedos e a minha mente transborda das emoções das quais tanto fujo. Tenho escrito muito, tanto e tão constantemente que os dedos já me doem, tenho calos nos indicadores e os mindinhos tremem ao se aproximarem do teclado do notebook. Mas as coisas não param por aí: se paro um minuto para fazer a lista do supermercado, encontro ela entre os ovos e a margarina.
E então, meu amigo, o que devo fazer? Me trancafiar num asilo, manicômio ou coisa assim, esperando emudecer? Acredita que eu ainda tenho alguma esperança?
Já considerei até cortar-me os dedos. E, neste momento, meu notebook vai pro fundo do baú. Quero esquecê-la, as palavras não me deixam.
Um abraço,
Ednardo
