terça-feira, 2 de junho de 2009

Ao início, fui um subir duma montanha, um escalar, pular, trespassar, correr.
A medida que subia, fui conhecendo cavernas sombrias, mas de calores aconchegantes, encostas e mirantes. Cada lugar com suas peculiaridades que os faziam únicos e me tentavam a enraizar-me ali, a perenizar-me em seu leito. No entanto, nenhum deles me segurava, eu só pensava em ir em frente. Isso seguiu, até o momento que avistei, ainda longe, o topo. Em verdade eu já o tinha visto em meus sonhos, porém só agora que o tinha encostado em minha retina percebia o por quê da subida: ali morava o meu amor.
E o topo daquela terra toda, de onde eu pretendia avistar o mundo, era uma garota linda que pulava ao meu redor a brincar e rir.
Desde então, eu subia resfolegante, anseava por ter meus pés encostando a terra casta possívelmente ainda não pisada, que de tanto fulgor me ofuscava a vista, me bambeava as pernas e me desnorteava. Foi uma jornada longa, como se quatro anos passassem para que eu, que já estava nos arredores do cume e já tocava seu solo macio, me sentisse firmado naquele lugar. E na verdade, foram anos plenos e felizes, tantos e tão bons que nunca tinha a certeza se realmente estava no ponto mais alto de tudo, sentia que sempre era possível ir mais um pouco acima e adiante.
Mas, durante esse tempo, como se as pegadas gastas de todos os solos pisados por mim fossem acordando, iam me chamando, me lembrando de tudo que eu realmente sou. E eu, chegando junto ao topo, sentindo e vendo tudo, via que dele eu nunca estive perto. Dentro de mim, sempre soube, sem enxergar, que para mim não há lugar. Tendo enganado a nós dois, a vergonha tomando conta das pernas, desci, pisando sobre as minhas próprias pegadas.